A cantora Elza Soares morreu nessa quinta-feira (20), aos 91 anos, de causas naturais, no Rio de Janeiro (RJ). Um dos maiores nomes da música brasileira, eleita a “voz do milênio” pela BBC de Londres em 1999, ela deixa um legado importante para nossa cultura e uma trajetória que inspira e dá visibilidade à luta das mulheres negras no país.

Elza Gomes da Conceição nasceu em 23 de junho de 1930, na Zona Norte do Rio de Janeiro, filha de uma lavadeira e de um operário. Casou-se obrigada aos 12 anos, virou mãe aos 13, perdeu dois filhos recém-nascidos, por desnutrição, quando ainda era adolescente, e ficou viúva aos 21. Antes de ser cantora profissional, foi lavadeira e operária de uma fábrica de sabão.

Do relacionamento conturbado com o jogador de futebol Mané Garrincha (1933-1983), marcado pela violência doméstica, teve um filho, Garrinchinha, que morreu aos 9 anos em um acidente de carro em 1986. Outro filho da cantora, Gilson, morreu aos 59 anos, em 2015, por complicações de uma infecção urinária.

Para se tornar uma das maiores cantoras do Brasil, Elza Soares superou não só as adversidades da vida pessoal como também um duplo preconceito, por ser mulher e negra. Ao longo da carreira, cantou sobre as injustiças sociais (como em “Malandro”), o racismo (em “A Carne”), a violência contra as mulheres (em “Maria da Vila Matilde”) e sobre sua trajetória de superação e sucesso (em “Volta por Cima” e “Mulher do Fim do Mundo”).

“Elza Soares nos deixa órfãos de uma voz política”

Para Luciana Brasileiro, vice-presidente da Comissão de Direito e Arte do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM, Elza Soares teve uma trajetória comum à mulher negra brasileira. “Conheceu de perto a fome, aliás, dialogou com ela. Elza viveu uma vida de perdas e se foi no auge de sua carreira”, comenta a advogada.

“A mulher do fim do mundo, que tinha todas as chances de morrer de forma prematura, por ter a carne mais barata do mercado, por ser uma mulher vítima de violência doméstica, chegou aos 91 anos e deixou um legado de luta, de coragem e altivez”, acrescenta a diretora nacional do IBDFAM.

Luciana Brasileiro conclui: “Elza Soares nos deixa órfãos de uma voz política. A mulher que casou na infância, perdeu quatro filhos, passou fome, enfrentou o preconceito racial, estético, etário e morreu cantando. Elza, por aqui sua voz ecoa, você segurou o país no braço e nos leva em seu coração”.

“Voz do milênio” nunca deixou de ser “a menina da Vila Vintém”

Presidente da Comissão de Direito de Família e Arte do IBDFAM, Fernanda Barreto lembra que Elza Soares se tornou “a voz do milênio”, como eleita pelos londrinos, sem ter deixado de ser a menina de Vila Vintém, da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

“Foi lá, numa das mais populosas comunidades cariocas à época onde a cantora nasceu e onde criou um modo intuitivo e próprio de fazer scratch, a partir dos gemidos que dava ao carregar a lata d’água na cabeça. A voz assombrosa, o suingue, o reconhecimento internacional e a bela carreira são os feitos mais evidentes dessa interprete que misturava o jazz e o samba com maestria ímpar”, ressalta Fernanda.

Mas Elza Soares foi muito mais, segundo a advogada. “A sua figura de mulher negra que enfrentou todas as vicissitudes de existir, de ter uma carreira, de ser mãe e de viver com liberdade seu desejo num país estruturalmente machista e racista, sem abaixar a cabeça e sem perder o entusiasmo pela vida e pelas possibilidades de transformação, certamente seguirá influenciando muitas gerações. Grande na arte, enorme na vida. Salve, Elza Soares!”

Ouça playlist do IBDFAM dedicada a Elza Soares

Para homenagear o legado de Elza Soares, o IBDFAM criou uma playlist com 15 músicas essenciais da trajetória da cantora. São canções que refletem sobre questões sociais como racismo, violência contra a mulher e vulnerabilidade social. Ouça agora no Spotify.]

 

Fonte: Assessoria de imprensa IBDFAM